Blog do Clube de Desporto e Aventura Margem Sul. As nossas aventuras nas provas de orientação e corridas de aventura contadas em primeira mão.

sexta-feira, novembro 04, 2005

1.º Raid Oeste BTT Caldas - 30 Outubro 2005


Quando o Nelson me enviou um mail com informação sobre o Raid, pensei eu que os 90 kms com “jeitinho” até se faziam... tal como a Organização, dividi “psicologicamente” os 90 kms em 3 etapas de 25 kms e uma etapa de 15 kms para terminar. Pareceu-me acessível, um ritmo moderado e constante deveria ser suficiente para terminar os 90 kms em 9 horas.

Até aqui tudo muito bem, a teoria parecia simples... é claro que no almoço do CP Natura Trophy, chamaram-me de tudo e mais alguma coisa até de “maluco” e fizeram-me aquele olhar “90 kms ?? Nem sabes o que te espera....Vais é ficar a dormir...”.
Diga-se de passagem que vontade não me faltou, ficar a dormir no Domingo de manha foi uma verdadeira tentação. Mas que se lixe, se não fosse já sabia que ia acordar às 12:00 com a sensação de arrependimento para o resto do dia.

Como há certas coisas que não se explicam agarrei no material e meti-me no carro. A própria viagem até às Caldas estava a ser penosa... no conta kms, reparei que da porta da minha casa até ao Bombarral (Casa do meu Amigo Henrique) são exactamente 90 kms. “Interessante..” pensei eu, comecei a pensar seriamente na palavra “maluco” e nos 90 kms.

Ao chegar ao complexo desportivo das Caldas, dirigi-me ao secretariado para levantar o dorsal. A menina do secretariado perguntou-me se eu escrevia com a mão esquerda ou com a direita. Eu fiz aquela cara de ingénuo (para não dizer cara de parvo) e ela depois explicou-me que tinha a ver com o seguro. Portanto, caso não saibam, ficam a saber... se partirem um braço, que seja o braço com que escrevem... caso contrário, não há seguro para ninguém... e não interessa qual o tipo de trabalho que executem, tem é que ser o braço certo.

Depois de sair do Secretariado, comecei a pensar na palavra “maluco”, 90 kms e em fracturas de braços.
Foi mais ao menos nesta altura que encontrei o Rui Marques, é sempre bom encontrar alguém conhecido em locais “remotos”.
Depois de carregar a mochila com mantimentos para dois dias e atestar a bike com mais de 3 litros de líquidos para a prova, estava preparado para a Partida.

É claro que a Partida não foi dada a horas, pelo que resolvi bocejar os próximos 30 minutos dentro do carro enquanto observava as bikes que passavam para cima e para baixo. Havia bikes para todas as carteiras desde as mais acessíveis até às topo de gama ( E depois havia a minha Bulldozer...).

Quando já estava quase a dormir dentro do carro, o speaker com os seus sons agudos de feedback dava o sinal de reunião para a partida. O Briefing foi dado (não ouvi nada...) e pela conversa de uns colegas à minha frente fiquei a saber que o número de Telefone SOS estava na parte de trás do dorsal. ( em caso de emergência, já sabem... ).

Como este Raid, é um “Passeio” a Partida foi um bocado à “Portuguesa”, começaram a andar numa direcção e o resto do pessoal foi todo atrás... alguns ainda estavam a tirar as Bikes dos suportes dos carros (O verdadeiro Portuga deixa tudo para a última....).
E assim, começou a prova... primeiro pelo centro das Caldas com algum Público surpreendido por ver tanta gente em cima de bicicletas com aquela chuva irritante e depois de atravessar um circuito de manutenção demos entrada na zona “rural”.

Enquanto ia no alcatrão das ruas das Caldas fui ultrapassado por um batalhão de gente que devia pensar que o percurso era de 9 kms em vez dos 90 kms... mas calmo, tranquilo, faz o teu ritmo e não te preocupes com os outros.
Foi nesta fase de aquecimento que reparei que ia carregado que nem um burro. O pessoal levava um camelback dos pequenos e pouco mais, comecei a por em dúvida muito do material que carregava às costas. Mas pronto, agora vamos com calma e logo se vê...

Durante uns tempos encaixei num grupo que mantinha mais ou menos o mesmo ritmo que o meu (coitados).
Como quem vai atrás leva sempre com o pó, neste caso com a lama, assim que começaram os troços de lama/argila foi a loucura total. Nas descidas não haviam travões e nas subidas não havia pernas para ninguém. Devidamente equipado com uns ténis de atletismo, foi um patinar constante nas subidas e descidas. Nesta altura, já tinha um tratamento completo à base de argila (as minhas pernas hoje estão mais macias...). A Bulldozer tinha triplicado de peso com a lama e já tinha passado mais tempo a empurrar a Bike do que sentado nela...

Ao km 8, já não tinha travão de trás e o da frente era mais lama do que borracha. Por volta do km 10, tinha dado inicio a uma descida “perigosa” (não havia descidas seguras), quando passa por mim um atleta em grande estilo... mas que exagerou um bocado na velocidade porque o rapaz apesar de ter uma boa bike, não conseguiu evitar uma queda aparatosa na parte final da descida. Prontamente desmonto e pergunto se precisava de ajuda, a expressão de dor na cara do rapaz diz tudo, tinha as canelas muito mal tratadas e pelos vistos teve muita sorte em não ter uma fractura.

Entretanto, chegaram mais dois colegas para ajudar, mas curiosamente eu era o único com telemóvel para chamar o SOS. Depois de esperar uns bons 20 minutos pelo carro da Organização, já estava mais que congelado e as pernas pareciam dois blocos de gelo.

Durante os 20 minutos de paragem, tinham passado por nós um número considerável de atletas, pelo que me decidi manter com os dois indivíduos que também tinham parado para ajudar. O número de atletas em pista era cada vez menor o que obrigava a uma atenção redobrada à sinalização precária do percurso.
De três passamos a dois, o outro jovem foi ficando para trás e depois o meu colega (um homem já com idade para ter juízo) deu uma das quedas mais artísticas que já tinha visto ao vivo. Numa descida (também com lama), ao sentir a bicicleta a fugir fez o que se deve fazer, afastar o corpo da bicicleta e deixar-se ir... neste caso fez um verdadeiro slide na lama com 180º de rotação, ainda foram uns bons metros e o facto de não existirem pedras ou raízes ajudou para o espectáculo. Tínhamos artista, quando for grande quero aprender a cair assim...

Depois de alguns kms, foi a minha vez de ir ficando para trás, o meu colega artista tinha outro andamento... pelo que me mantive no meu ritmo sem exageros. Pelo caminho começava a encontrar inúmeras baixas “mecânicas”, correntes partidas, cabos de mudanças... etc.. (nesta fase do campeonato já ninguém tinha travões, pelo que não é considerado como avaria mecânica... é um mal comum).

No final duma subida, um veterano pergunta-me se eu tenho uma chave para afinar os travões. Mas quais travões ? (pensei eu...) Isto era uma pandemia de gripe dos travões, não havia afinação possível. E este pessoal não traz ferramentas? Pesam muito ? Ou não querem sujar as ferramentas ?
Enfim, lá estive com o “jovem” a tentar resolver o problema...”excesso de lama”.

Apesar da média não ser a melhor, lá consegui chegar ao primeiro abastecimento (25 kms).
Parei o tempo suficiente para reabastecer de água, fruta e alguns cubos de marmelada. Parar por muito pouco tempo que seja, significava um arrefecimento imediato, estava encharcado e o equipamento que tinha levado não era o melhor para o frio/chuva.

Ao longo do percurso, reparei num facto que me deixou surpreendido pela negativa, para quem pratica um desporto “Amigo do Ambiente”, estes BTTistas deviam ter um pingo de vergonha nas trombas. Então não é que deitam garrafas de água e invólucros das barras energéticas para o chão. Isto era ainda mais evidente nos primeiros kms a seguir aos abastecimentos. Custa muito colocar os papéis no bolso ? Ficam com peso extra ?
Como em todas as comunidades, basta duas ou três ovelhas ranhosas para dar fama ao grupo, espero que estes porcos sejam uma minoria e que de futuro sejam desclassificados das provas por comportamento incorrecto.

Enfim, adiante...
Os trilhos tinham melhorado bastante e conseguia-se rolar em algumas zonas... o tempo permanecia fechado e com chuva irregular. A determinada altura do percurso chego à zona costeira, fiquei satisfeito por ver o mar...agora é seguir para Sul até à Foz do Arelho.

Muito dos kms feitos eram agora realizados a “solo”, não havia muito pessoal nesta fase do percurso e a sinalização do percurso era muito fraca... por vezes as pequenas fitas tinham caído das canas ou ramos e foram muitas as vezes que fiquei com dúvidas sobre o caminho a seguir... felizmente os trilhos das rodas eram bem visíveis.

Chegava ao Check Point em que se separavam os Homens dos Miúdos, à esquerda percurso para os 50 kms e à Direita percurso para os 90 kms.

Desmontei... falei um bocado com o “Staff”, iam fechar o percurso dos 90 kms dentro de 5 a 10 minutos... quem se sentisse em condições ainda podia seguir para a Direita.
Olhei para o meu relógio, vi a minha média... quando perguntei pelo estado dos trilhos, disseram que daqui para a frente era sempre a rolar, é sempre a andar em frente (por momentos lembrei-me das piadas do Gato Fedorento...)... mas que os últimos kms estavam cheios de lama. (Óbvio...).

Hum..., enquanto tentava decidir qual o caminho a seguir fiz uma critica “construtiva” sobre a sinalização do percurso. Responderam algo do estilo: “Pois nós tínhamos colocado Cal e tudo no chão para sinalizar melhor o percurso...”.
Fiquei parado a olhar para o Homem a tentar perceber se ele estava a gozar comigo ou não. Não me pareceu que ele estivesse a brincar... ninguém se riu. Decidi não responder...

Olhei outra vez para o relógio... tinha todas as razões lógicas para fazer apenas os 50 kms, estava cansado, com sono, com frio e tinha uma dor nas costas que piorava a cada km que passava.
Pelas contas que fiz na altura, deveria fazer cerca de 10 horas para concluir os 90 kms... e aquela resposta da Cal deixou-me cheio de confiança para atacar os 90 kms numa corrida contra o relógio.

Tinha chegado um grupo... virou tudo para a esquerda, apenas dois seguiram para a direita e eu não fui um deles. Segui a ritmo lento, nem tentei sequer apanhar o grupo que seguia à minha frente, estava ainda a pensar se tinha tomado a decisão correcta...
Sem stress... aproveitei para descontrair as pernas até às Caldas... pelo caminho ainda apanhei um Veterano que estava a curtir uma de solitária já a alguns kms. Concluímos os últimos kms na conversa sobre os tempos da Tropa no Montijo e as provas de BTT que já tinha feito. Afinal não era o único a criticar a sinalização... o percurso estava mesmo mal sinalizado.

Chegada às Caldas... desmontei e as minhas costas agradeceram-me por não ter feito os 90 kms. Como havia uma fila enorme para lavar as bicicletas (2 mangueiras apenas), resolvi ir fazer uns alongamentos às pernas...
E porque é que eu estou a falar nisto, porque devo ter sido o único cromo a fazer alongamentos no final da prova. Ninguém faz alongamentos no BTT ? Um gajo que faça alongamentos é roto?
Portanto, corta-se a meta, desmonta-se da Bike e ficamos 20 minutos em pé a arrefecer enquanto se está à espera para lavar a bike?

É claro que há uns “prós” (vulgo cromos), que deixam as bikes com os juniores da equipa e dizem : “Pá, chavalo fica aqui e lava-me a bike enquanto eu vou tomar banho...” e os miúdos até ficam contentes porque ficaram responsáveis pela bike do fulano.
Passando isto para uma prova de Orientação, seria: “Pá, chavalo fica aqui e lava-me os ténis enquanto eu vou tomar banho...”.

Bem, avante...depois de ter trocado dois dedos de conversa com o Rui sobre a prova e a sua Aventura no Brasil (outra prova, outro nível...), coloquei-me na fila para lavar a bike, por esta altura já tremia de frio por todos os lados, quando acabei de lavar a bike e cheguei finalmente ao carro já devia estar roxo e pouco faltou para começar a ver elefantes cor-de-rosa...

Ao entrar nos balneários, passei por um espelho e consegui distinguir o branco dos olhos. Diga-se de passagem que foi a primeira vez que tomei duche totalmente vestido com um impermeável... sentia-me uma pescada a descongelar. Duche tomado e era altura de atacar o almoço.
Depois de encher o estômago com esparguete à bolonhesa, o conforto do carro era um alivio... a minha única preocupação agora era em não adormecer ao volante, rádio em altos berros e ala que se faz tarde... para o ano há mais e agora venha a Ori-BTT em Sintra.
CDAMS

6 Comments:

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